Faça uma busca nos noticiários do São Paulo e então você irá achar diversas matérias que reproduzem declarações do treinador Muricy Ramalho e do capitão Rogério Ceni sobre a necessidade de se ter um meio-campista efetivo que faça as vezes do popular camisa 10, também conhecido como “meia”.
No entanto, dentro da diretoria tricolor, há aqueles que dizem que esse meia não é tão essencial como pregam Muricy e Ceni, sob a alegação de que o São Paulo ganhou uma Libertadores, um Mundial e o bicampeonato brasileiro sem a presença desta peça no elenco.
Para iniciar a discussão, é importante saber o que se espera do camisa 10 tão especulado no dia-a-dia tricolor. Atendo-se apenas nas ações ofensivas do jogo, esse jogador deverá ser, necessariamente, o organizador, com a bola devendo passar por seus pés na transição defesa-ataque na maioria das vezes. É ele também quem ditará o ritmo de jogo: enquanto a bola é trabalhada por ele e seus companheiros num ritmo leve à moderado no campo defensivo ou no meio-de-campo, em um determinado momento que julgar ser o ideal este jogador acelera sua movimentação em direção ao ataque, evidenciando a mudança de ritmo para que receba a bola para finalizar ou fazer o passe para um companheiro em melhores condições de marcar o gol. Vejam abaixo o vídeo do gol da Espanha anotado por Fernando Torres na final da UEFA Euro 2008 e prestem atenção na movimentação de Xavi Hernández, o “meia” da equipe espanhola: ele pega na bola duas vezes, acelera o ritmo do jogo para recebê-la pela terceira vez e dá a assistência para o gol do título da Fúria.
No São Paulo de hoje quem mais se aproxima da função de meia é Hernanes. Mesmo assim, o volante tricolor não realiza essa função com freqüência por causa de suas características de jogo, já que gosta de segurar um pouco mais a bola e conduzi-la para então fazer o passe ou chutar no gol adversário.
Hugo é outro jogador do grupo são-paulino que não tem as características de organizador, despertando em alguns torcedores a sensação de que ele não faz o que dele se espera. Atualmente, tem jogado como winger pelo lado esquerdo, sempre entrando na diagonal em direção à meta adversária para escorar cruzamentos ou fazer uma jogada individual; quando a posse de bola é da equipe oponente, Hugo reforça a marcação pelo setor esquerdo – não obstante, essas são as obrigações dos wingers tão utilizados pelos treinadores europeus. No Grêmio, Hugo era muito mais um segundo atacante do que meio-campista e sempre foi assim nas outras equipes por onde passou, como Juventude e Corinthians, por exemplo.
Quando a imprensa divulga possíveis informações de dentro do São Paulo as quais dizem que os cartolas tricolores não enxergam que a vinda de um meia seja preponderante para o sucesso da equipe, há lá sua razão em muito explicada pelos resultados recentes do clube.
Muitos dizem que o último jogador que realizou a função de um camisa 10 vestindo o Manto Tricolor foi Raí na década de 90; outros já pensam que o meia inexiste no São Paulo desde a saída de Edivaldo de Oliveira Chaves, o Pita, em 1988. Pessoalmente, penso que Ricardinho, contratado junto ao Corinthians em 2002, tinha todas as características necessárias para ser um grande camisa 10 do Tricolor, porém, infelizmente, não se confirmou o sucesso vislumbrado em sua passagem pelo Morumbi.
Por esse histórico, o argumento da diretoria sobre a dificuldade de se trazer o tal meia tem lá sua razão de existir. Mas será que com a presença dessa única peça o trabalho do treinador não seria facilitado?
Hoje, assim como nos dourados anos de 2005, 2006 e 2007, o São Paulo tem como principal arma a exploração da velocidade de seus alas e atacantes, com a aproximação de um dos volantes para finalizar em gol uma bola ajeitada pelo centroavante que faz o pivô. O trabalho de bola pelo meio fica dificultado, e com isso a tendência é explorar os flancos com os alas ou wingers (dependendo do esquema de jogo adotado) ou com os velozes atacantes que temos no elenco, que por características próprias acabam buscando o jogo pelas laterais para fazer um cruzamento ou fazer uma jogada individual em direção ao gol.
Por estes motivos, raramente veremos nesse time do São Paulo um gol com troca de passes do campo de defesa até o ataque, o que acaba aproximando muito o nosso Tricolor do estilo de jogo principalmente praticado na Inglaterra, cuja essência está nos lançamentos, cruzamentos e penetração em diagonal.
Com um camisa 10 no elenco, as possibilidades de vermos um “Sampa Show” como no já distante ano de 2002, em que nadamos e morremos na praia por inúmeros fatores, aumentariam consideravelmente. O que não quer dizer que nos últimos três anos o São Paulo praticou um futebol medíocre e mal jogado e de baixa competitividade – muito pelo contrário.
Portanto, o que mudaria no Tricolor com o tão esperado meia seriam as estratégias de jogo, que teoricamente possibilitariam a prática de um futebol mais vistoso, além de facilitar a transição defesa-ataque.
Dentre os nomes especulados – William, Jádson e Lincoln – e já negados pela diretoria, os dois últimos são os que mais teriam possibilidades de exerceram aquilo que se espera “d’O Meia”, já que o ex-jogador do Corinthians é mais leve e agressivo, apesar de ter boa qualidade no passe.
Enquanto o nosso camisa 10 não chega, continuamos assim, “muito bem, obrigado”, com todas as possibilidades de ver o São Paulo ser campeão novamente.
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