Quem é o campeão brasileiro de 1987? O Flamengo, vencedor da Copa União (Módulo Verde) daquele ano? Ou o Sport, que bateu o Guarani no quadrangular final, que não teve a presença de Flamengo e Internacional, respectivamente campeão e vice do Módulo Verde?
Essa discussão, somada à recente conquista do Brasileirão 2009 pelo Flamengo, trouxe à tona a pergunta: o rubro-negro carioca é pentacampeão ou hexacampeão brasileiro? Além disso reavivou um outro questionamento, feito quando o São Paulo foi penta em 2007: qual é o primeiro pentacampeão brasileiro da história, o Tricolor ou o rubro-negro?
Não há como não recorrer à história diante de tantas dúvidas.
Depois do Campeonato Brasileiro de 1986, conquistado pelo São Paulo contra o Guarani, a CBF tentou mudar o regulamento classificatório para a disputa do Brasileirão. Até aquele ano, o nacional era inchado: os torneios estaduais serviam como classificatório e, dessa forma, todos estados brasileiros possuíam ao menos um representante. A ideia da CBF era formar uma primeira divisão com as 24 melhores agremiações de 1986; contudo, não obteve sucesso e foi aí que os grandes clubes se rebelaram e resolveram criar o Clube dos Treze (C13), pois a CBF afirmou que faria um campeonato com 40 clubes.
Há divergências quanto à história contada de que a CBF quis alterar o regulamento – no que se refere à introdução do cruzamento entre os dois melhores dos módulos Verde e Amarelo na disputa de um quadrangular final – durante a competição.
Alguns defendem a tese de que o ex-presidente vascaíno Eurico Miranda – à época, o representante do C13 na CBF – aceitou a proposta da entidade que comanda o futebol brasileiro. No entanto, ao levar o regulamento ao C13, encontrou resistência de outros membros influentes, propiciando assim o imbróglio. Segundo essa tese, portanto, o campeonato iniciou com o regulamento que indicava o cruzamento, porém com a rejeição do C13. Na contramão, há quem argumente que houve uma jogada vergonhosa da CBF, o que em outras palavras significa uma mudança de regulamento durante a competição.
Qual é a versão correta? Não sei, “não vivi” (já era nascido, mas tinha pouco mais de 1 ano). Apresento-lhes as duas versões que foram disseminadas por aqueles que se arriscam em contar a história do Campeonato Brasileiro desde o seu surgimento em 1971.
Outra divergência é acerca do Módulo Amarelo, apelidado por muitos de segunda divisão. Pergunta-se: como pode ser segunda divisão um campeonato que tinha o Guarani, o vice-campeão do ano anterior (1986) ante o São Paulo?
O que pode reforçar o pensamento daqueles que defendem a Copa União (Módulo Verde) como o verdadeiro Brasileirão 1987 é a transmissão televisiva: a Globo reproduzia, ao vivo e para o Brasil inteiro, os jogos do torneio organizado pelo C13.
Se o São Paulo, naquela oportunidade, apoiou a criação da Copa União e, junto aos demais clubes participantes, deu àquele torneio o status de Campeonato Brasileiro, então não há o que se discutir: se houver coerência e um mínimo de bom-senso pelos lados do Morumbi, o Tricolor é obrigado a reconhecer o Flamengo como o primeiro pentacampeão brasileiro e dar ao rubro-negro a tal taça das bolinhas (se é que um dia irá recebê-la), por mais que a CBF vá em linha contrária. E um agravante para isso é o fato do atual presidente são-paulino ser Juvenal Juvêncio, que em 1987 ocupava o cargo de diretor de futebol do Tricolor.
“Ah, e as respostas das questões feitas no início?”, deve estar indagando-se o leitor, num justo tom de cobrança.
Bem, pode o São Paulo aceitar decisões que foram tomadas com o seu consentimento no passado e reconhecer o Fla como primeiro pentacampeão, e pode a CBF, por sua vez, posicionar-se de maneira firme sobre o assunto. Nada disso irá por um fim na polêmica criada.
Os bate-bocas entre dirigentes do rubro-negro carioca e do rubro-negro pernambucano, bem como a briga de bastidores entre eles, será eterna e nenhum dos dois irá concordar em dividir o título de 1987.
Seja quando o Flamengo conquistar mais um Brasileirão, seja quando um jovem flamenguista perguntar se é penta ou hexa, seja enquanto a taça das bolinhas não estiver no poder de algum dos clubes que a pleiteiam, a história daquele Campeonato Brasileiro de 1987 deverá ser para sempre contada. E com as mais diversas e misteriosas versões e interpretações.